quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Apelo da comida de avó x Minha avó fazia

por Adriana Salles Gomes em 16 de Novembro de 2009 às 11:02 pm

minhaavofazia-logoFogão pifado, conheci uma charmosa rotisseria de bairro (na Lapa, São Paulo) que salvou meu fim de semana: Minha Avó Fazia(recém-inaugurada, com site ainda em construção). Fui porque ela misteriosamente começou a me seguir no Twitter; depois descobri que é de um conhecido. Mas quero aproveitar essa história para levantar um tema mais amplo: a comida de avó é válida nos dias de hoje?
Originalidade zero a minha, aviso. Foi um post no blog do Luiz Américo que levantou o tema primeiro. Escreveu o editor do Paladar, caderno de restaurantes do Estadão:
“…Qual seria o raciocínio? O de apresentar um repertório de receitas que porventura tenha desaparecido do cotidiano doméstico e do cardápio dos restaurantes (neste caso, não os mais gastronômicos), promovendo, assim, aquele tal de resgate histórico? Ou o de estabelecer identidade imediata com o cliente com algo que é tão delicioso, tão reconfortante, que nos lembra os mimos da infância?….
“…. fico aqui pensando sobre a tal comida reconfortante. Eu já não quero massa cozida em demasia - aquela, de 30, 35 anos atrás, fazia sentido porque era a da minha avó. Assim como não quero doces dulcíssimos - apesar de gostar daqueles que eram o centro das atenções nos encontros de família. Pois o passado eu já vivi, ele está lá no lugar dele. As coisas foram assimiladas, guardadas nos seus devidos compartimentos. Não preciso ser criança de novo, isso eu já fui. Então, os estabelecimentos que prometem a comida da nonna vão me propor o quê, já que será impossível recriar as virtudes e defeitos daquela específica culinária caseira?”
Achei a análise do Luiz Américo pertinente. Enquanto a lia, lembrei-me do Alex Atala « Less
dizendo que seu reconfortante é comer fruta no pé. Tem a ver com memória de infância dele, mas também com uma qualidade de ser “clássica e imune ao tempo” da fruta, o que não necessariamente acontece com a comida de avó. Primeiro, depende da avó. A minha avó materna, por exemplo, era um desastre culinário (mas uma estilista de mão cheia; eu vivia chiquérrima quando criança); já minha avó paterna, baiana, arrebentava na cozinha, só que usava peneira de taquarinha para fazer vatapá com seu exército de empregadas, o que, convenhamos, datou. Em segundo lugar, os ingredientes e modos de fazer não se aplicam mais. Banha de porco??? Assim como o liquidificador substituiu a peneira de taquarinha, em casa só entra óleo de canola ou azeite de oliva.
Agora volto à rotisseria Minha avó fazia, usada apenas como pretexto pelo Luiz Américo, mas que aqui é texto. Eu provei (do ravioli da nonna com molho bolonhesa e do soberbo polpettone ao brigadeiro de pistache e ao macaron, passando pelo pão caseiro com ratatouille) e aprovei com louvor. Primeiro, a avó em questão, deu para perceber, era das craques de cozinha. Segundo, a mãe e o filho que tocam o negócio têm o expertise das técnicas contemporâneas, com diplomas de alta gastronomia & cia.; tanto que, mesmo com a manteiga usada no preparo, o resultado não pesa.
O que a Minha Avó Fazia oferece, eu diria, é um update de comida de avó italiana. Estão de parabéns por isso. E, em um tempo em que se ansia por raízes, como o que vivemos, essa cozinha cumpre um papel. Meu veredito, portanto, é que o apelo da comida caseira de antigamente existe e resiste, e fica no ponto com um update básico. Porque tem a força do contraponto às 200 mil inovações culinárias por segundo que nos rodeiam. O que não deixa de ser mais ou menos como a fruta no pé do Alex Atala. E que tudo isso conviva em paz. Vocês não acham?

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